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Cortes menos nobres em alta: como língua, rabo e ossobuco voltaram ao centro da gastronomia

  • Foto do escritor: Maiara Rodrigues
    Maiara Rodrigues
  • há 12 horas
  • 2 min de leitura

Durante décadas, a gastronomia brasileira sobretudo aquela que buscava reconhecimento urbano e status social organizou-se em torno de uma hierarquia silenciosa da carne. Filé-mignon no topo, cortes macios e de preparo rápido como símbolo de distinção.



Pratos de carne cozida no ferro


O restante era classificado como secundário, popular, por vezes invisível. No entanto, em 2026, observa-se um movimento curioso e revelador: cortes outrora considerados menos nobres voltam a ocupar o centro do prato.


Língua, rabo, ossobuco, bochecha, miúdos diversos. O que antes era associado à economia doméstica ou à necessidade passou a ser reinterpretado como escolha consciente. Não se trata apenas de tendência gastronômica, mas de mudança cultural mais ampla.


Historicamente, esses cortes sustentaram cozinhas populares. Em períodos de restrição econômica, aproveitar todas as partes do animal era prática comum e necessária. A técnica culinária se desenvolveu justamente para transformar textura rígida em maciez, intensidade em profundidade de sabor. Cozinhar longamente, apurar caldos, extrair colágeno eram saberes transmitidos entre gerações.


Com a modernização do consumo e a padronização dos açougues urbanos, consolidou-se uma preferência por cortes magros, de preparo rápido e apresentação uniforme. O tempo tornou-se mais escasso, e a técnica paciente perdeu espaço. A carne passou a ser escolhida por conveniência e aparência.


O retorno atual desses cortes revela transformação dupla. De um lado, há motivação econômica. O aumento constante do preço da carne estimula consumidores e restaurantes a revisitar alternativas mais acessíveis. De outro, há um resgate cultural que dialoga com sustentabilidade e integralidade alimentar. Utilizar o animal por completo deixa de ser sinal de escassez e passa a ser postura ética.


Essa mudança desmonta hierarquias simbólicas. O que era visto como “inferior” ganha nova narrativa. A língua deixa de ser tabu e torna-se delicadeza quando bem preparada. O ossobuco, com seu tutano central, transforma-se em prato de longa cocção valorizado por textura e profundidade. O rabo, cozido lentamente, oferece sabor que cortes magros não alcançam.


Há também um elemento de curiosidade contemporânea. Em um cenário saturado de opções previsíveis, experimentar cortes menos convencionais representa abertura ao inusitado. O paladar busca intensidade, autenticidade e conexão com tradições esquecidas.


Restaurantes atentos percebem esse movimento e adaptam cardápios. Técnicas clássicas de cocção lenta reaparecem. Pratos que exigem tempo retornam às cozinhas profissionais, sinalizando mudança no ritmo da gastronomia. O forno baixo e prolongado substitui a pressa.


Entretanto, é preciso reconhecer a ambivalência do fenômeno. Ao serem incorporados por estabelecimentos sofisticados, cortes antes populares passam por revalorização simbólica que nem sempre beneficia quem historicamente os consumiu. O que era comida cotidiana transforma-se em prato autoral com preço elevado. A narrativa muda, mas a estrutura social permanece complexa.


A incidência de cortes menos nobres na gastronomia não é apenas resposta a mercado. É reflexo de uma sociedade que revê desperdícios, questiona padrões e redescobre técnicas ancestrais. A carne volta a ser compreendida como totalidade, não como fragmento idealizado.


No fim, talvez o termo “menos nobre” revele mais sobre nossas construções culturais do que sobre o alimento em si. Porque, à mesa, nobreza nunca foi atributo natural do corte — mas escolha coletiva sobre o que valorizar.

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