Michelle Kallas
- Ana Beatriz

- há 15 horas
- 3 min de leitura
Dez anos de advocacia, uma crise de vocação e uma viagem a Los Angeles — e foi assim que uma das chocolateiras mais criativas de São Paulo descobriu que sua verdadeira causa sempre foi o chocolate.

Michelle Kallas não chegou à gastronomia pela porta convencional. Chegou depois de uma década exercendo advocacia em renomados escritórios de São Paulo — uma carreira construída com competência, mas que foi perdendo sentido aos poucos, até o ponto em que continuar parecia mais uma obrigação do que uma escolha. Em 2018, ela decidiu parar e perguntar o que de fato queria.
A resposta não veio imediatamente. Mas quando veio, foi definitiva.
Dez anos de direito e uma pergunta sem resposta fácil
Formada em direito, Michelle seguiu o caminho que fazia sentido — escritórios, clientes, processos, a rotina estruturada de quem construiu uma carreira sólida. Durante dez anos, foi exatamente o que se esperava dela. Mas há um ponto em carreiras assim em que a competência técnica e a satisfação pessoal deixam de andar juntas — e Michelle chegou a esse ponto.
A decisão de buscar outro caminho passou por sessões de coaching e mentoria. Não foi uma virada dramática nem uma epifania instantânea. Foi um processo de escuta — de si mesma — que foi revelando, aos poucos, que a paixão pela gastronomia sempre esteve presente, esperando ser levada a sério. A partir daí, fez cursos com chefs renomados, experimentou diferentes áreas da cozinha e foi estreitando o campo até encontrar, no chocolate, o lugar onde criatividade e técnica se encontravam de forma natural.
Los Angeles e Melissa Coppel
A virada decisiva veio com uma viagem. Pediu férias do escritório e foi para Los Angeles fazer um curso de chocolates artísticos com Melissa Coppel — chocolatière americana premiada internacionalmente, referência absoluta na técnica de bombons com pintura aerografada e estruturas de precisão quase arquitetônica. Era um curso feito por profissionais. Michelle foi como aluna e voltou como chocolatière.
A combinação que encontrou em Los Angeles não era apenas técnica. Era a descoberta de que o chocolate permitia algo que o direito nunca havia permitido: unir rigor e beleza, precisão e expressão criativa, resultado tangível e autoria. Ao unir chocolate à criatividade, Michelle se encontrou — e não havia mais volta para o escritório.
Do ateliê de 35m² à primeira loja
De volta a São Paulo, Michelle ainda conciliou por um tempo as duas vidas. Advogava durante o dia e produzia bombons artesanais nas margens — vendendo para amigos, para colegas de trabalho, para quem cruzava com aqueles chocolates e não conseguia não recomendar para alguém. O boca a boca fez o que a publicidade faz mais devagar: construiu uma clientela fiel antes mesmo de existir uma marca.
Quando a decisão de se dedicar integralmente ao chocolate chegou, chegou com clareza. A Mica Chocolates nasceu em um pequeno ateliê de 35m² na Vila Madalena, com vendas por e-commerce — um começo enxuto que tinha mais a ver com foco do que com limitação. A marca cresceu a partir do produto, não do marketing.
A pandemia como acelerador
Paradoxalmente, foi durante a pandemia que a Mica Chocolates deu seu salto mais significativo. Com o crescimento das encomendas, Michelle ampliou a operação e abriu a primeira loja física em Pinheiros — 150m², com uma parede de vidro que permite aos clientes acompanhar toda a produção em tempo real. A transparência não é apenas estética: é uma declaração de intenção sobre o que a marca representa. Não há nada a esconder quando o processo é o produto.
Em novembro de 2024, a Mica chegou ao Shopping JK Iguatemi com um quiosque — um passo de expansão que levou a marca para um dos endereços mais qualificados do varejo paulistano sem abrir mão da identidade construída desde o ateliê da Vila Madalena.
A chocolatière por trás da marca
O que diferencia a trajetória de Michelle Kallas não é apenas a virada de carreira — São Paulo está cheia de histórias assim. O que diferencia é o que ela trouxe do direito para o chocolate: a disciplina de quem sabe que detalhes importam, a capacidade de construir argumentos — agora expressos em sabor e forma — e a clareza de que excelência é resultado de processo, não de improviso.
Mesmo com a expansão da Mica, Michelle mantém envolvimento direto na direção criativa dos bombons, das embalagens e das redes sociais. Cada detalhe passa por ela — não por controle, mas porque a paixão que a trouxe até aqui ainda é a mesma que guia cada decisão da marca. Da advocacia ao chocolate, Michelle Kallas não mudou de área. Encontrou a sua.
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