Comer virou linguagem: o que o prato que escolhemos diz sobre quem somos hoje
- Maiara Rodrigues

- há 7 dias
- 2 min de leitura
Durante muito tempo, comer foi entendido como resposta direta à fome. Uma necessidade fisiológica, organizada por horários, costumes familiares e disponibilidade.

Esse entendimento já não explica o presente. Em 2026, o ato de comer se deslocou do campo da necessidade para o da comunicação. O prato escolhido, o lugar frequentado, o horário da refeição e até aquilo que deliberadamente se evita passaram a funcionar como códigos sociais. Comer virou linguagem.
Não se trata apenas de gosto pessoal. Trata-se de identidade. Ao pedir um prato específico, o indivíduo sinaliza pertencimentos, valores e posicionamentos — mesmo quando não tem consciência disso. A comida deixou de ser neutra. Ela fala. E fala alto.
O que pedimos diz tanto quanto o que recusamos. Pratos “simples demais” podem ser evitados por quem deseja distinção; pratos “elaborados demais” são rejeitados por quem busca autenticidade. Há quem escolha comida reconfortante para comunicar afeto e quem prefira opções funcionais para sinalizar controle. Cada escolha carrega uma narrativa implícita.
Onde comemos também importa. Restaurantes deixaram de ser apenas prestadores de serviço e passaram a operar como extensões simbólicas do eu. Comer em determinados lugares comunica repertório, estilo de vida e, muitas vezes, visão de mundo. Não é coincidência que certos espaços concentrem públicos homogêneos: a mesa organiza tribos.
O que se posta amplia essa linguagem.
Fotografar um prato não é apenas registrar uma refeição; é publicar um posicionamento. A estética escolhida, o enquadramento, a legenda e até o silêncio dizem algo. Há quem poste para afirmar pertencimento, quem poste para provocar desejo e quem, deliberadamente, não poste para marcar distância do espetáculo. O não-post também comunica.
Do ponto de vista psicológico, esse fenômeno revela uma necessidade contemporânea de coerência identitária. Em um mundo fragmentado, onde papéis sociais se multiplicam, a comida oferece um território relativamente estável para expressar quem se é — ou quem se gostaria de ser. Comer fora virou gesto narrativo.
Antropologicamente, essa transformação aproxima o alimento de antigos sistemas simbólicos. Assim como vestuário, música ou linguagem corporal, a comida organiza fronteiras invisíveis. Ela separa, aproxima, hierarquiza e conecta. O prato funciona como senha de acesso a determinados grupos e como barreira para outros.
Há também o que se evita. Evitar certos alimentos, horários ou lugares não é apenas preferência; é posicionamento. Em 2026, a recusa se tornou tão expressiva quanto a escolha. Não pedir bebida alcoólica, não consumir determinados ingredientes, não frequentar certos espaços tudo isso comunica valores, rotinas e prioridades.
Esse código social se intensifica no ambiente urbano, onde a diversidade de oferta amplia o campo de escolha. Quanto mais opções, mais a decisão se torna significativa. O indivíduo não escolhe apenas o que comer, mas qual narrativa sustentar naquele momento.
O leitor se reconhece nesse cenário porque ele o vive diariamente. A indecisão diante do cardápio, a escolha estratégica do restaurante, o cuidado com o que será visto ou comentado. Nada disso é trivial. São microdecisões carregadas de sentido.
No fim, a fome continua existindo. Mas ela já não explica tudo. Em 2026, comer é também dizer. Dizer quem somos, a quem pertencemos, do que nos afastamos e o que valorizamos. A mesa virou palco e cada prato, uma frase.
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