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O sabor que vem de fora: por que o Brasil desconfia da própria mesa

  • Foto do escritor: Ana Beatriz
    Ana Beatriz
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Há um gesto quase automático na vida cultural brasileira que se repete com notável constância: aquilo que vem de fora chega investido de um valor que raramente se exige do que nasce aqui. O fenômeno atravessa a música, a literatura, o vestuário, a arquitetura e, de maneira particularmente sensível, a comida. No campo da gastronomia, o estrangeiro não apenas desperta curiosidade; ele frequentemente inaugura respeito. Antes mesmo de ser provado, já se apresenta como melhor elaborado, mais sofisticado, mais digno de admiração. O prato nacional, ao contrário, costuma carregar a obrigação de se explicar.



Esse movimento não é novo nem acidental. Ele se formou lentamente, como hábito mental, e hoje opera com tamanha naturalidade que raramente é questionado. O brasileiro, mesmo cercado por uma das maiores biodiversidades alimentares do planeta e por uma produção agrícola que sustenta boa parte do mundo, ainda tende a olhar para fora em busca de chancela simbólica. A comida estrangeira é, muitas vezes, tratada como promessa; a comida brasileira, como evidência que precisa ser defendida.


A herança de um olhar treinado para fora


A valorização do que vem de fora tem raízes profundas na formação social do país. Desde o período colonial, o Brasil foi ensinado a se perceber como espaço de extração, não de elaboração. Produzia-se aqui, refinava-se alhures. O que retornava, transformado, vinha carregado de prestígio. Comer, nesse contexto, nunca foi apenas nutrir-se; foi participar de uma hierarquia simbólica em que o distante parecia sempre mais avançado.


Esse olhar atravessou os séculos e se adaptou às ideias de progresso que acompanharam a urbanização e a modernização do país. O estrangeiro passou a representar método, técnica, racionalidade. Na mesa, isso se traduziu na crença de que certos sabores eram mais “educados”, certas cozinhas mais “evoluídas”, certos modos de comer mais civilizados. A comida brasileira, por sua vez, permaneceu associada ao improviso, à rusticidade, à abundância quase desordenada.


Paladar e autoestima


O paladar, longe de ser apenas uma faculdade sensorial, é também construção social. Aprendemos a gostar, mas aprendemos sobretudo a valorizar. No Brasil, esse aprendizado frequentemente veio acompanhado de uma desconfiança silenciosa em relação ao que é próprio. O sabor nacional é apreciado, mas raramente elevado. Ele conforta, mas não distingue.


Essa dinâmica revela algo mais amplo: uma autoestima cultural instável, que oscila entre o orgulho defensivo e a admiração automática pelo outro. Quando um ingrediente brasileiro é elogiado por um estrangeiro, algo se reorganiza. O que era cotidiano ganha súbito estatuto de exceção. O aplauso externo funciona como espelho invertido, devolvendo ao país uma imagem de valor que ele próprio hesitava em reconhecer.


O elogio estrangeiro como legitimação tardia


Nos últimos anos, discursos estrangeiros de admiração pela gastronomia brasileira

passaram a circular com maior frequência. Eles destacam diversidade, complexidade, potência criativa. Esses olhares, embora muitas vezes sinceros, operam como gatilhos simbólicos. O brasileiro, ao se ver apreciado, passa a autorizar o próprio orgulho.


Há algo de paradoxal nisso. A comida não muda quando é elogiada de fora; o que muda é a disposição interna de reconhecê-la. O sabor sempre esteve ali. O território sempre produziu. A técnica sempre existiu, ainda que transmitida por outros meios. O reconhecimento externo não cria valor, mas o ativa.


Abundância e inferioridade: uma contradição persistente


Poucos países vivem uma contradição tão evidente quanto o Brasil no campo alimentar. De um lado, uma abundância material rara: solos férteis, climas diversos, biomas múltiplos, cadeias produtivas extensas. De outro, uma sensação recorrente de inferioridade cultural, como se essa riqueza fosse bruta demais, simples demais, desorganizada demais para ser plenamente valorizada.


Essa tensão aparece na maneira como se hierarquizam ingredientes, preparos e hábitos. O que é local precisa ser reinterpretado para ganhar prestígio. O que é estrangeiro já chega interpretado. O brasileiro, nesse jogo, muitas vezes aprende a gostar de si mesmo por tradução.


Produção, território e identidade


A distância entre produzir e valorizar é um dos traços mais reveladores dessa história. O Brasil alimenta, mas não se alimenta simbolicamente do que produz. O campo sustenta a cidade, mas raramente define seus critérios de distinção. O ingrediente nacional é abundante; o discurso que o cerca, não.


Reconhecer a comida brasileira não exige exaltação cega nem nacionalismo ruidoso. Exige, antes, um deslocamento de olhar: perceber que valor não nasce apenas do selo externo, mas da relação entre território, saber e continuidade. Comer o que é próprio não é fechar-se ao mundo; é dialogar com ele em pé de igualdade.


Entre o espelho e a mesa


O fascínio pelo estrangeiro não desaparecerá, nem precisa. Ele faz parte do intercâmbio cultural, da curiosidade legítima, do desejo humano de experimentar o outro. O problema surge quando esse fascínio se transforma em régua única, quando o valor só se confirma ao atravessar fronteiras.


Talvez o desafio brasileiro esteja menos em convencer o mundo de sua riqueza alimentar e mais em abandonar a necessidade constante de aprovação. Provar o próprio sabor, sem pedir licença, é um gesto cultural profundo. Significa aceitar que o paladar também é território, e que nem tudo o que emociona precisa vir de longe para ser reconhecido como bom.


Afinal, desconfiar do próprio prato antes mesmo de prová-lo diz menos sobre a comida e mais sobre a história que se contou — e se repetiu — à mesa.

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