top of page

Óleo de dendê: entre ancestralidade, preconceito e identidade na culinária brasileira

  • Foto do escritor: Maiara Rodrigues
    Maiara Rodrigues
  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Poucos ingredientes carregam tantas camadas simbólicas na culinária brasileira quanto o óleo de dendê.


Culinária afro-brasileira em cena aconchegante


Espesso, alaranjado, de aroma inconfundível, ele não é apenas gordura culinária; é marca de território, memória de travessia e permanência cultural. Ainda assim, em pleno 2026, o dendê segue oscilando entre reverência e preconceito, entre celebração patrimonial e desconfiança contemporânea.


Sua chegada ao Brasil está intrinsecamente ligada à diáspora africana. Trazido pelos povos escravizados, o dendezeiro encontrou no solo brasileiro, especialmente no litoral da Bahia, condições favoráveis para se enraizar. Com ele vieram técnicas, rituais e preparações que estruturaram parte fundamental da culinária afro-brasileira. O azeite de dendê tornou-se base de pratos que hoje definem identidades regionais, como moquecas, vatapás e acarajés.


O dendê não era apenas ingrediente. Era elemento ritualístico. Nas religiões de matriz africana, sua presença ultrapassa a cozinha e ocupa espaço simbólico. O alimento e o sagrado se entrelaçam, revelando que, para muitas comunidades, cozinhar com dendê é também preservar uma herança espiritual.


Entretanto, ao longo do século XX, o óleo passou a enfrentar olhares atravessados. Associado à comida “forte”, “pesada” ou “excessiva”, foi gradualmente marginalizado em certos círculos urbanos. A modernização alimentar, com seu apelo à neutralidade de sabor e à leveza visual, afastou o dendê dos cardápios que buscavam sofisticação padronizada.

Do ponto de vista antropológico, esse movimento revela tensões mais profundas. Rejeitar o dendê, muitas vezes, significou rejeitar sua origem cultural. O preconceito alimentar acompanhou o preconceito social. Ingredientes de matriz africana foram por vezes tratados como exóticos demais ou inadequados a uma ideia de gastronomia “refinada”.


Ao mesmo tempo, o mercado internacional redescobriu o óleo de palma sob outra lógica: commodity global, utilizado em larga escala pela indústria alimentícia. Essa apropriação industrial, frequentemente desvinculada de sua dimensão cultural, produziu novas controvérsias ambientais e econômicas, distanciando ainda mais o ingrediente de sua narrativa original.


Observa-se um movimento de revalorização crítica. Cozinheiros e pesquisadores voltam a destacar o dendê não como moda, mas como fundamento histórico. Há um esforço para contextualizar seu uso, respeitar sua origem e compreender sua complexidade sensorial. O sabor marcante deixa de ser obstáculo e passa a ser assinatura.


O dendê provoca reações intensas. Seu aroma ativa memórias profundas em quem cresceu com ele à mesa. Para outros, causa estranhamento imediato. Essa divisão ilustra como o gosto é construção cultural, moldado por convivência e aprendizado.


Falar do óleo de dendê é falar de identidade brasileira em suas camadas menos homogêneas. É reconhecer que a culinária nacional não se formou por neutralidade, mas por encontros, tensões e resistências. O dendê permanece como símbolo dessa história complexa.


Num país que ainda busca compreender suas próprias matrizes culturais, o azeite de dendê resiste. Não apenas como gordura culinária, mas como testemunho de permanência. Em cada prato que o utiliza, há mais do que sabor: há memória, disputa e afirmação.

Comentários


bottom of page