O mercado de influenciadores na gastronomia: quem ainda influencia, quem perdeu força e o que realmente move o público em 2026
- Maiara Rodrigues

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
Durante anos, falar de gastronomia nas redes sociais foi sinônimo de visibilidade instantânea. Bastava um prato bem iluminado, um vídeo curto e um bordão repetido à exaustão para transformar perfis pessoais em vitrines de restaurantes lotados.

O mercado de influenciadores gastronômicos cresceu rápido, profissionalizou-se parcialmente e, justamente por isso, entrou em crise. Em 2026, o setor já não opera sob a lógica da novidade, mas sob a pressão da credibilidade.
O que antes era território de descoberta tornou-se ambiente saturado. O público aprendeu a reconhecer padrões, roteiros e discursos. Pratos exageradamente performáticos, elogios genéricos e visitas sucessivas a casas recém-abertas passaram a gerar menos desejo e mais desconfiança. Influenciar deixou de ser aparecer; passou a exigir coerência.
Esse deslocamento não significa o fim do mercado, mas sua reconfiguração. Influenciadores que cresceram apoiados exclusivamente em alcance e frequência sentem a perda de relevância. Em contrapartida, perfis menores, com linguagem consistente, recortes claros e relação real com o território ganham espaço. A influência se desloca da massa para a densidade.
Do ponto de vista psicológico, o público demonstra fadiga. Há um cansaço evidente da gastronomia como espetáculo permanente. Comer fora, para o consumidor contemporâneo, voltou a ser experiência sensorial, social e econômica não apenas conteúdo. Quando tudo parece anúncio, nada parece recomendação. O excesso de estímulo anulou parte do efeito.
Os restaurantes percebem isso na prática. Convites genéricos a influenciadores já não garantem retorno. Stories não se convertem necessariamente em mesas ocupadas. A lógica do “post por permuta” perde eficiência, especialmente em um cenário de custos elevados e margens apertadas. Em 2026, casas mais atentas escolhem com critério quem convidar — ou optam por não convidar ninguém.
Há também uma mudança estrutural no papel do influenciador. Muitos deixaram de atuar como descobridores e passaram a funcionar como validadores tardios de tendências já consolidadas. Chegam depois do burburinho inicial, quando o restaurante já se estabeleceu por indicação direta e repetição de público. A influência, nesse caso, não cria movimento apenas o acompanha.
Antropologicamente, esse mercado reflete uma transição maior: a da autoridade. O público já não deposita confiança automática em quem tem muitos seguidores, mas em quem demonstra repertório, constância e capacidade crítica. O elogio irrestrito perdeu valor. A opinião contextualizada, mesmo quando não é entusiasmada, ganha respeito.
Surge, assim, um novo perfil de influência gastronômica. Menos preocupado em viralizar, mais atento a construir narrativa. Menos focado em volume de visitas, mais criterioso nas escolhas. Influenciadores que frequentam restaurantes sem postar, que retornam às casas fora de convites e que assumem recortes claros passam a exercer influência silenciosa, porém duradoura.
Para o mercado gastronômico, isso exige maturidade. Trabalhar com influenciadores em 2026 não é estratégia de curto prazo, mas decisão editorial. A pergunta deixa de ser “quantas pessoas isso alcança?” e passa a ser “quem isso realmente convence?”. Alcance sem aderência se tornou ruído.
O setor também começa a distinguir criador de conteúdo de comunicador gastronômico. Nem todo vídeo bonito constrói leitura crítica. Nem toda legenda emocional traduz experiência real. A profissionalização do mercado passa, inevitavelmente, por essa separação.
No fim, o mercado de influenciadores na gastronomia não acabou ele se depurou. O excesso produziu anticorpos. Em 2026, influencia quem sustenta discurso no tempo, quem entende de comida além da imagem e quem respeita a inteligência do público. O resto continua postando. Mas já não dita o movimento.
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