Tássia Magalhães
- Ana Beatriz

- 13 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de mar.

Guaratinguetá é uma cidade do interior de São Paulo conhecida por poucos fora do estado. É de lá que vem Tássia Magalhães — a chef que, em 2025, foi eleita Melhor Chef Feminina da América Latina pelo Latin America's 50 Best Restaurants, um dos títulos mais relevantes da gastronomia continental. O prêmio coroou mais de 16 anos de carreira construídos a partir de uma trajetória que começa bem longe dos holofotes da alta gastronomia paulistana: na TV aberta, assistindo à Palmirinha.
"Eu amava cozinhar e adorava assistir à Palmirinha", disse a chef em entrevistas. Foi aquela cozinheira simples, de receitas feitas com prazer e afeto, quem despertou em Tássia o interesse pela gastronomia. Ela chegou a se inscrever no curso de Direito, mas nunca chegou a começar. No caminho, descobriu a Escola Senac de Campos do Jordão e não largou mais.
Formou-se aos 19 anos — e a partir daí foi construindo, etapa por etapa, uma das carreiras mais consistentes de sua geração.
O começo: entre confeitaria e uma escola chamada Jefferson Rueda
Logo após a formatura, em 2008, Tássia conseguiu um estágio no Pomodori — casa que marcou época em São Paulo, então sob o comando do chef Jefferson Rueda. Ela começou pela confeitaria, área que a atraía antes mesmo de descobrir a cozinha salgada. Mas o Pomodori era italiano, e a imersão naquela cozinha foi moldando o seu olhar para a culinária da Itália — menos pelo glamour do prato finalizado, mais pela forma como essa tradição respeita ingredientes simples e exige técnica apurada.
A relação com Jefferson Rueda foi determinante. "Tenho uma verdadeira adoração pelo Jefferson, que sempre me apoiou muito", conta Tássia. Ela chegou a ouvir de Janaina Rueda que tinha sido o estopim para que Jefferson começasse a trabalhar mais com mulheres em posições de destaque dentro da cozinha. Da confeitaria, Tássia foi crescendo dentro da casa. Após uma temporada na Europa, voltou ao Pomodori como tornante — cobrindo todas as praças do restaurante por quase dois anos. Com a saída de Rueda, assumiu como sub-chef de Diogo Silveira e, quando este também deixou a casa, Tássia tinha apenas 23 anos. Assumiu a cozinha por completo e tornou-se sócia do restaurante.
A Europa como escola
Antes de retornar ao Brasil e assumir o comando do Pomodori, Tássia passou um período na Europa que seria fundamental para a formação do seu repertório técnico. Estagiou em casas de referência: o dinamarquês Geranium, três estrelas Michelin e eleito um dos melhores restaurantes do mundo; o Kadeau, pioneiro da gastronomia nórdica com cozinha sazonal e ingredientes de terroir único; o Amass; e a confeitaria Summerbird. Cada uma dessas passagens adicionou camadas à sua compreensão de técnica, sazonalidade e identidade autoral — conceitos que se tornariam centrais no seu próprio restaurante anos depois.
O Nelita: uma cozinha de mulheres, um projeto de vida
Em maio de 2021, Tássia abriu o Nelita, na Rua Ferreira de Araújo, em Pinheiros. O nome é uma homenagem direta à mãe, Vânia Helena — Nelita é o apelido italiano para Helena. Mais do que um restaurante, o Nelita nasceu como um manifesto silencioso e cotidiano: desde o primeiro dia, a cozinha funciona exclusivamente com mulheres. Atualmente, são 12 cozinheiras atuando em todas as praças, além de estagiárias.
Não foi um conceito planejado como estratégia de marketing. Nasceu de uma trajetória. "Era comum ouvir que as mulheres não aguentavam a pressão nem tinham força física para o trabalho", lembrou a chef em entrevista à Exame. Aos 27 anos, já no comando de uma brigada masculina no Pomodori, ainda escutava frases como "mulher fica na praça fria ou na confeitaria". Ao criar o Nelita, Tássia decidiu romper com essa lógica de forma prática e permanente. A arquitetura da casa reforça a escolha: a cozinha é aberta para o salão, visível de qualquer ponto. As mulheres estão em evidência, sem nada que as esconda.
"É uma cozinha de muita sensibilidade, mas também muito potente", resume Tássia quando questionada sobre o conceito. Ela evita rótulos e não se define como feminista, mas é direta sobre o que quer: "Se a gente parar para pensar, no Brasil já há algumas cozinhas nesse caminho, mas ainda falta muito."
A cozinha do Nelita
A proposta do Nelita parte da cozinha italiana, mas recusa o classicismo como destino. "O Nelita tem uma base italiana, mas nada clássico. É tão somente a minha maneira de ver a Itália", explica Tássia. Sua maior referência declarada é Massimo Bottura — não pela fama, mas pela abordagem: reinterpretar uma tradição sem destruí-la, com precisão intelectual e emocional ao mesmo tempo.
No dia a dia, o restaurante opera com menus degustação como formato principal — dez etapas que percorrem a visão de Tássia sobre ingredientes, sazonalidade e contraste. Vegetais ocupam papel central que surpreende quem espera encontrar apenas massas. A beterraba, por exemplo, aparece em versões que combinam fermentação, acidez e delicadeza visual. As massas artesanais estão presentes, mas como parte de um repertório mais amplo, que inclui também influências brasileiras de terroir — ingredientes de pequenos produtores, sazonalidade respeitada, referências regionais incorporadas com discrição.
Um dos menus mais comentados da casa, "O Prazer da Mesa Pertence a Todas as Épocas", foi pensado tanto como reflexão sobre a história da gastronomia quanto como ato político. O último prato salgado — codorna finalizada com chocolate e texturas de cebola — era uma resposta direta a Auguste Escoffier, o chef francês considerado um dos papas da alta gastronomia moderna, que em 1890 declarou publicamente que mulheres não pertencem às cozinhas profissionais porque "agem com o coração e não seguem as receitas". A resposta de Tássia e de suas 12 cozinheiras veio no prato. "No total, somos 12 meninas. Essa é a melhor resposta que poderíamos dar", disse a chef ao NeoFeed.
Expansão e novos projetos
O Nelita foi o ponto de partida, não o destino final. Em 2023, Tássia abriu o Mag Market, no Itaim Bibi — uma boulangerie de produção artesanal inspirada na pâtisserie francesa com ingredientes brasileiros. Em 2025, inaugurou o Lita, um wine bar criado em parceria com o marido e sommelier Danyel Steinle, com carta entre 400 e 500 rótulos e um menu de pequenas porções desenvolvido — como no Nelita — inteiramente por mulheres.
O reconhecimento
Em 2025, o Nelita subiu para a 12ª posição no Latin America's 50 Best Restaurants — alta de 14 posições em relação ao ano anterior, e de 27 posições em comparação a 2022, quando estreou na lista com pouco mais de um ano de funcionamento. Nesse mesmo ano, Tássia foi eleita Melhor Chef Feminina da América Latina pelo mesmo ranking, completando dez anos exatos desde que entrou na lista Forbes Under 30 como nome promissor da gastronomia.
O prêmio, para ela, tem peso coletivo. "Sem ele, não sei quantas mulheres seriam reconhecidas. O mundo da gastronomia ainda é muito dominado por homens." Para celebrar, planejou um jantar no Nelita reunindo outras chefs brasileiras premiadas — Helena Rizzo, Roberta Sudbrack, Manu Buffara, Janaina Rueda e Bianca Mirabili, eleita Melhor Chef Confeiteira da América Latina em 2025.
Do interior paulista às mesas mais comentadas da América Latina, Tássia Magalhães construiu uma carreira que não se resume a prêmios ou posições em ranking. Construiu um ponto de vista — sobre cozinha, sobre mulheres, sobre o que uma geração de chefs pode mudar quando decide não aceitar as regras como elas chegaram.
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