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Da ceia ao café da manhã do dia 1º: os sabores da ressaca

  • Foto do escritor: Tali Americo
    Tali Americo
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Há um tipo de refeição que não aparece em livro de receitas, nem tem hora marcada: o café da manhã do dia 1º de janeiro.Depois da ceia farta, das taças de espumante, dos fogos e dos abraços de meia-noite, o corpo acorda pedindo paz — e comida simples. É o momento em que o glamour da virada dá lugar ao sabor da ressaca.



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A ressaca como patrimônio cultural


Entre panetones abertos pela metade, tigelas de lentilha reviradas e copos esquecidos na pia, o café da manhã do primeiro dia do ano é uma espécie de ritual nacional.O que se come nesse momento diz muito sobre quem somos e como vivemos a festa da virada.

Há quem acorde cedo e ataque o que sobrou da ceia — o pernil frio com pão, o arroz de forno improvisado, o vinho que sobrou do brinde. Outros preferem um pingado com pão na chapa, buscando abrigo na padaria mais próxima, onde o dono já está acostumado a ouvir histórias da noite anterior.


A origem do costume de reaproveitar


O Brasil tem uma relação afetiva com a comida do dia seguinte.Desde os tempos coloniais, as famílias aprendiam a “reinventar o que sobrou” — fosse o arroz do jantar que virava bolinho no dia seguinte, fosse o feijão de ontem que se transformava em tropeiro. Na virada do ano, esse costume se amplifica: o reaproveitamento não é só economia, é quase superstição. Reutilizar a lentilha, por exemplo, é um jeito de “prolongar a sorte”. Comer carne de porco no almoço do dia 1º? Um reforço simbólico para que o ano avance, nunca recue.


O sabor da simplicidade


Depois de uma noite intensa, o corpo pede o básico: café preto, pão e silêncio.É o momento em que o Brasil volta ao eixo, e as cidades parecem em suspensão. A cozinha vira refúgio e o alimento, um abraço.No Nordeste, o cuscuz com manteiga e café é o clássico que devolve energia. No Sul, chimarrão e pão caseiro; no Sudeste, pão francês com presunto e queijo; no Norte, tapioca e suco de frutas.Cada região tem sua forma de dizer: “sobrevivemos à virada”.


Os sabores da manhã seguinte


Dados recentes de plataformas de delivery mostram que os pedidos na madrugada — especialmente de lanches — crescem expressivamente entre 0h e 7h. Embora apenas uma pequena parcela dos estabelecimentos funcione nessa faixa, entregas de café da manhã também apareceram em crescimento no intervalo entre 7h e 11h. Em cidades grandes, costumam haver opções abertas de zonas turísticas ou serviços de hotelaria no dia 1º, porém muitos restaurantes permanecem fechados até mais tarde. Essa realidade torna o café da manhã do primeiro dia do ano um momento de espera, onde o que está aberto — padarias, hotéis, cafés turísticos — ganha protagonismo.


Entre o ritual e o improviso


Se a ceia de Ano Novo é planejada com dias de antecedência, o café da manhã do dia 1º é o oposto: puro improviso, puro Brasil. Cada um resolve com o que tem — e essa é, talvez, a maior simbologia da virada. Não há regra, etiqueta ou mise en place: o que vale é o alívio de um novo começo, o sabor de estar vivo e o prazer simples de mastigar o tempo devagar.


Um brinde à manhã seguinte


Enquanto o sol de janeiro invade a cozinha, o país inteiro mastiga o silêncio e a esperança. É o momento em que o Ano Novo começa de fato — não com fogos, mas com o barulho de um pão sendo cortado e o cheiro de café subindo da chaleira.O sabor do recomeço, afinal, é sempre o mais simples.

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