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Quando o estrangeiro descobre o Brasil à mesa

  • Foto do escritor: Ana Beatriz
    Ana Beatriz
  • 27 de jan.
  • 4 min de leitura

Há algo de curioso — e revelador — no entusiasmo recente com que influenciadores estrangeiros declaram amor à comida brasileira. O gesto se repete com pequenas variações: a câmera se aproxima, o olhar se abre em surpresa estudada, a frase de efeito surge como sentença generosa — “this is the best food in the world” — e, de súbito, um país inteiro parece autorizado a gostar mais de si mesmo. Não se trata apenas de comida. Trata-se de reconhecimento.




O fenômeno, que poderia ser lido como simples intercâmbio cultural, pede observação mais lenta. O fascínio estrangeiro pela culinária brasileira não é novo, mas sua forma atual, mediada por imagens, reações e performances afetivas, carrega marcas profundas de uma longa história de olhares assimétricos. O Brasil, afinal, sempre foi observado antes de ser ouvido.


Um paladar observado desde fora


Desde o período colonial, a comida brasileira ocupou um lugar ambíguo no imaginário estrangeiro. Foi descrita como exótica, excessiva, primitiva ou curiosa, raramente como sofisticada em seus próprios termos. O que se comia aqui interessava menos como sistema cultural e mais como indício de um território a ser classificado. Ingredientes eram anotados, hábitos relatados, mas quase sempre a partir de um olhar que buscava diferença, não compreensão.


No século XX, com a consolidação de uma ideia de “cozinha internacional”, a comida brasileira passou a existir para fora sobretudo em versões simplificadas, reduzidas a poucos pratos que cabiam na narrativa tropical: feijoada, churrasco, frutas abundantes. O resto permanecia invisível, como se o país comesse apenas aquilo que fosse facilmente traduzível.


O influenciador como novo intérprete


O que muda agora não é apenas o meio, mas a mediação. O influenciador estrangeiro ocupa o lugar de intérprete contemporâneo, alguém que prova em nome de muitos e devolve ao Brasil uma imagem filtrada por surpresa, afeto e espetáculo. Ele não escreve relatórios nem publica tratados; reage. E essa reação, aparentemente espontânea, carrega enorme poder simbólico.


Ao dizer que ama a comida brasileira, o influenciador oferece algo que o país historicamente buscou: validação externa. A câmera não mostra apenas o prato, mas o encantamento. O Brasil, por alguns segundos, se vê gostável, admirável, desejável. E isso produz orgulho, ainda que envolto em desconforto.


O que aparece — e o que fica fora do quadro


O hype não se distribui de forma equânime. Certos pratos se tornam protagonistas constantes, quase obrigatórios. São aqueles que cabem bem no espetáculo: carnes suculentas, frituras generosas, sabores intensos facilmente traduzíveis em reação. Ingredientes complexos, modos de preparo menos fotogênicos, comidas do cotidiano silencioso permanecem à margem.


Há também uma preferência por narrativas que confirmam expectativas: a fartura, o tempero “forte”, o excesso como traço identitário. Pouco espaço sobra para a escassez, para a adaptação, para o saber culinário que não se apresenta como espetáculo, mas como sobrevivência. O Brasil exibido é, muitas vezes, o Brasil que se exporta com facilidade.


O desejo de ser visto


A recepção calorosa desse olhar estrangeiro diz tanto sobre quem olha quanto sobre quem é olhado. O entusiasmo com que brasileiros compartilham, comentam e celebram esses vídeos revela um desejo antigo de reconhecimento. Não basta saber que a comida é boa; é preciso que alguém de fora confirme.


Esse mecanismo toca a autoestima coletiva. Quando o estrangeiro gosta, valida-se não apenas o prato, mas o país. Comer vira ato simbólico ampliado: não se trata só de alimentar, mas de representar. A comida passa a carregar o peso de provar que o Brasil tem valor, mesmo quando esse valor sempre esteve ali.


Entre descoberta e exotização


Seria simplista tratar todo fascínio estrangeiro como exotização. Há, sem dúvida, descobertas genuínas, encontros honestos, curiosidade real. Mas também há uma estética da surpresa que transforma o cotidiano brasileiro em espetáculo repetível, em performance pronta para consumo rápido.


O risco está menos no elogio e mais na assimetria que ele mantém. O Brasil continua sendo celebrado quando cabe no papel de revelação encantadora, não quando se apresenta em sua complexidade contraditória. A comida admirada é aquela que confirma uma ideia prévia de alegria, intensidade e excesso.


O espelho e suas distorções


Olhar-se pelo espelho estrangeiro sempre foi tentação nacional. Ele oferece contorno, foco, brilho. Mas também distorce. Ao depender desse reflexo para reafirmar seu valor, o país corre o risco de reduzir sua própria narrativa culinária àquilo que gera reação imediata.


A comida brasileira não precisa ser descoberta para existir. Ela antecede a câmera, o elogio e o hype. O desafio talvez esteja em acolher o interesse estrangeiro sem se submeter a ele, em escutar o elogio sem transformar a validação em medida absoluta de valor.


No fim, o entusiasmo do influenciador estrangeiro revela menos sobre o Brasil do que parece. Revela, sobretudo, um encontro entre desejo e expectativa, entre quem busca novidade e quem anseia por reconhecimento. À mesa, mais uma vez, o país se observa sendo observado — e tenta, nesse jogo antigo, distinguir o afeto genuíno do aplauso fácil, a curiosidade honesta do espetáculo passageiro.

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