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O sabor da virada: o que o brasileiro come (e por quê) no Ano Novo

  • Foto do escritor: Tali Americo
    Tali Americo
  • 30 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

No Brasil, a passagem de ano é muito mais do que um marco no calendário — é um verdadeiro ritual à mesa. A ceia do Réveillon carrega séculos de crenças, influências culturais e gestos simbólicos que, mesmo sem perceber, o brasileiro repete a cada virada. Da lentilha ao espumante, tudo tem um significado — e nada é por acaso.




As origens da ceia da virada


As tradições de Ano Novo que conhecemos hoje são resultado de uma mistura de costumes europeus, africanos e orientais.Os romanos já celebravam o início do ano com banquetes dedicados a Jano, o deus das passagens — daí vem o nome janeiro. A ideia era começar o ciclo com fartura, acreditando que o primeiro dia ditaria a sorte dos meses seguintes.


Com o passar dos séculos, os portugueses trouxeram para o Brasil o hábito das grandes ceias e o consumo de alimentos que simbolizavam prosperidade. Já as populações africanas, com forte presença no litoral e nas senzalas urbanas, trouxeram o respeito ao mar e aos seus elementos — origem do costume de oferecer flores e comidas à Iemanjá na virada.


Por que a lentilha virou sinônimo de sorte


A lentilha, talvez o alimento mais clássico do Réveillon brasileiro, tem origem nas festas italianas. Sua forma redonda e pequena lembra moedas — daí a associação com riqueza.Durante o século XIX, imigrantes italianos no Sul e Sudeste difundiram o hábito de comê-la à meia-noite ou nos primeiros minutos do novo ano. O gesto, simples, carrega a esperança de que o próximo ciclo traga prosperidade financeira.

Segundo dados da Embrapa, o consumo de lentilha no Brasil cresce em média 30% no mês de dezembro, concentrando quase metade das vendas anuais do produto no país.



Uvas, romãs e as sete ondas: os rituais da sorte


Outro costume amplamente difundido é o de comer 12 uvas à meia-noite, um para cada mês do ano, tradição espanhola que chegou ao Brasil no início do século XX. Já as sementes de romã vêm de uma simbologia oriental ligada à fertilidade e à abundância — muitas pessoas as guardam na carteira como amuleto.

No litoral, o costume de pular sete ondas nasceu da influência das religiões de matriz africana, especialmente o candomblé. O número sete, considerado sagrado, representa os orixás do mar. Ao pular as ondas, pede-se sorte, amor e saúde — e, claro, agradece-se com oferendas gastronômicas, de flores a bolos e frutas.



Carne de porco, mas nunca de frango


A superstição popular também guia o cardápio. No Brasil, acredita-se que o porco simboliza progresso, pois “fuça para frente” — enquanto o frango ciscaria para trás, trazendo má sorte. Por isso, muitos evitam aves no jantar da virada.O pernil e o lombo suíno tornaram-se protagonistas das mesas de Réveillon, especialmente nas ceias familiares, enquanto o bacalhau — herança portuguesa — reina nas versões mais sofisticadas.



As cores e o espumante: símbolos do recomeço


O branco é a cor mais associada ao Ano Novo brasileiro. A tradição, inspirada nos rituais africanos em homenagem a Iemanjá e Oxalá, foi incorporada à cultura popular nos anos 1970, principalmente no Rio de Janeiro. O espumante, por sua vez, é símbolo de celebração universal: o estourar da rolha marca o fim de um ciclo e o início de outro.

Segundo a Associação Brasileira de Sommeliers, o consumo de espumantes aumenta em até 80% no mês de dezembro, movimentando mais de R$ 500 milhões entre rótulos nacionais e importados.



O sabor de começar de novo


Por trás de cada ingrediente, há um desejo coletivo: prosperidade, saúde, amor, fartura. As ceias brasileiras misturam crenças antigas, influências globais e um toque de improviso tropical. Do arroz com lentilha ao pernil assado, o que se celebra é a esperança — o desejo de que o próximo ano traga novos sabores, novas chances e novos começos.

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