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Histórias da Culinária: O sal

  • Foto do escritor: Tali Americo
    Tali Americo
  • 30 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura
Sal: o tempero que moveu impérios

Antes de ser o tempero mais banal da mesa, o sal foi sinônimo de vida, riqueza e disputa. Nenhum outro ingrediente atravessou com tanta força os caminhos da história humana — da Antiguidade às prateleiras modernas.


As civilizações mais antigas já o veneravam. No Egito, o sal era usado para conservar carnes, peixes e, sobretudo, corpos — sem ele, o processo de mumificação não existiria. Os romanos o transformaram em instrumento de poder: a palavra “salário” vem de salarium, uma porção de sal dada aos soldados como forma de pagamento. O valor era tanto que, por séculos, o sal serviu como moeda de troca em diferentes partes do mundo.


Na China, há registros de exploração de sal desde 6000 a.C., e em regiões como a Etiópia e o Saara, blocos de sal chegaram a substituir o ouro. As “rotas do sal” moldaram fronteiras, conectaram povos e definiram impérios. Era um recurso estratégico: controlar o sal era controlar a alimentação, o comércio e a conservação de alimentos num tempo em que o gelo e a refrigeração ainda eram impensáveis.


Sal já foi sinônimo de vida e prosperidade
Sal já foi sinônimo de vida e prosperidade

No Brasil, o sal entrou pela mão dos colonizadores portugueses, vindo das salinas de Aveiro e do Algarve. Rapidamente, o país descobriu seu próprio potencial: as salinas do Rio Grande do Norte, especialmente as de Mossoró e Macau, tornaram-se grandes potências naturais. Hoje, o estado é responsável por cerca de 95% da produção nacional de sal marinho, exportando para dezenas de países.


Mas o sal também carrega uma dualidade curiosa. Enquanto é indispensável à vida humana — regula a pressão, o equilíbrio hídrico e o funcionamento dos músculos —, seu excesso virou símbolo de um mundo moderno que consome demais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o brasileiro ingere em média 9,3 gramas de sal por dia, quase o dobro do recomendado. E, diferentemente de nossos antepassados, ele não vem apenas do sal de cozinha, mas de produtos ultraprocessados, pães e temperos industrializados.


Há ainda o lado simbólico: o sal é pureza, é pacto, é permanência. Em rituais religiosos, ele representa proteção. Na mesa, significa hospitalidade. “Comer o sal de alguém” — expressão antiga — era o mesmo que aceitar amizade ou aliança.


Da mesa romana ao saleiro de vidro brasileiro, o sal é uma constante civilizatória. Está no corpo humano, nos oceanos e nas estradas do comércio mundial. É o tempero que nunca perdeu o poder — mesmo quando tudo ao redor mudou de sabor.

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