Histórias da Culinária: a origem da pizza margherita
- Tali Americo

- 24 de mar.
- 2 min de leitura

Hoje ela é onipresente: está nas pizzarias artesanais, nas grandes redes internacionais e nos fornos a lenha de Nápoles que reivindicam tradição centenária. Três cores, poucos ingredientes, quase nenhuma ornamentação. A pizza margherita parece simples demais para carregar um mito - mas sua história envolve realeza, construção de identidade nacional e uma narrativa cuidadosamente preservada.
Para entendê-la, é preciso voltar à Nápoles dos séculos XVIII e XIX. A cidade era populosa, desigual e vibrante. A pizza, naquele momento, não era símbolo da Itália, mas comida de rua consumida por trabalhadores urbanos. Feita com massa fermentada, assada rapidamente e coberta com ingredientes baratos como alho, banha, ervas e, mais tarde, tomate, era alimento acessível e associado às classes populares.

O tomate, trazido das Américas, levou tempo até se consolidar na culinária italiana. Durante muito tempo foi visto com desconfiança. Só a partir dos séculos XVII e XVIII passou a integrar de forma definitiva o repertório alimentar do sul da Itália. A combinação de massa, tomate e queijo já circulava em Nápoles antes de qualquer intervenção real.
A narrativa mais difundida sobre a criação da pizza margherita nos leva a 1889, quando o rei Umberto I e a rainha Margherita de Savoia visitaram a cidade. Conta-se que a rainha, curiosa sobre a comida local, solicitou que um pizzaiolo preparasse diferentes versões do prato mais popular da cidade - a pizza. Raffaele Esposito, da então Pizzeria Brandi, teria servido três opções. Entre elas, uma combinação de tomate, muçarela e manjericão - cores que coincidiam com a bandeira italiana recém-estabelecida.
Segundo a tradição, a rainha aprovou a receita, e Esposito a batizou em sua homenagem. Uma carta atribuída à Casa Real agradecendo pela preparação é frequentemente apresentada como registro do episódio.
O contexto ajuda a entender o peso desse gesto. A Itália havia sido unificada poucas décadas antes, em 1861. O país ainda consolidava sua identidade nacional. Associar um prato popular às cores da bandeira e à aprovação da realeza ajudava a transformar uma comida de rua napolitana em símbolo de uma nação recém-formada.

Ao longo do século XX, com a imigração italiana para os Estados Unidos e outros países, a pizza atravessou fronteiras e passou por inúmeras transformações. Ganhou espessura, novos ingredientes e formatos. A margherita, no entanto, permaneceu como referência de autenticidade - uma espécie de padrão clássico diante das variações.
Em Nápoles, a tradição foi progressivamente codificada. Técnicas de preparo, tipos específicos de farinha, tomates e muçarela passaram a ser valorizados como elementos de preservação cultural. A margherita deixou de ser apenas uma combinação de ingredientes para se tornar expressão de pertencimento e memória coletiva.
Se a carta enviada à pizzaria foi decisiva ou apenas reforçou uma receita já conhecida, talvez nunca se saiba com absoluta certeza. O fato é que a margherita passou a representar mais do que sabor. Ela sintetiza a transformação de um alimento popular em emblema nacional - e mostra como a cozinha pode servir de ponte entre classes sociais, regiões e momentos históricos.
Simples na aparência, a pizza margherita carrega uma das narrativas mais emblemáticas da gastronomia moderna: a de como um prato cotidiano pode se tornar símbolo de um país inteiro.
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