Mama-cadela no Cerrado: o alimento que antecede o Brasil escrito
- Ana Beatriz

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
Há alimentos que entram para a história por decreto, por receita registrada ou por comércio organizado. Outros, mais discretos, simplesmente permanecem. A mama-cadela pertence a esta segunda categoria.
Fruto nativo do Cerrado brasileiro, ela não se anunciou como descoberta nem pediu lugar à mesa nacional; esteve sempre ali, atravessando o tempo como parte do cenário, do gesto cotidiano e da sobrevivência silenciosa de quem aprendeu a comer observando a terra.
Antes que o Brasil se entendesse como país, antes mesmo que sua flora fosse classificada, a mama-cadela já cumpria um papel preciso: alimentar, tratar, sustentar. Seu consumo não nasceu de uma escolha gastronômica, mas de uma necessidade moldada pela escassez, pela sazonalidade e pela íntima familiaridade com o território. Comer, nesse contexto, não era um ato simbólico isolado, mas uma extensão do conhecimento empírico acumulado ao longo de gerações que jamais escreveram livros, mas souberam ler sinais.
Um Brasil anterior aos nomes
Quando a colonização avançou sobre o interior, encontrou não apenas terras a ocupar, mas sistemas alimentares complexos, baseados na observação atenta do ambiente. A mama-cadela, conhecida e utilizada por povos indígenas e comunidades rurais do Centro-Oeste e do Norte de Minas, fazia parte desse repertório. Seu uso medicinal, associado ao tratamento de afecções da pele e problemas digestivos, não surgia de fórmulas, mas de repetição e experiência. A eficácia não era medida em laboratório, mas no corpo que respondia.
Esse Brasil anterior à catalogação científica organizava sua alimentação a partir do que crescia próximo, do que resistia ao fogo, à seca e à irregularidade do clima. A mama-cadela não se impôs como produto comerciável porque nunca precisou fazê-lo. Seu valor estava na constância, não na abundância; na confiança construída, não na novidade.
Comer como forma de habitar
A cultura alimentar que se formou em torno da mama-cadela revela um modo de vida em que comer e habitar eram verbos indissociáveis. O fruto não exigia preparo elaborado, nem transformações complexas. Era colhido, partilhado, às vezes guardado. Esse gesto simples moldava rotinas, pausas no trabalho, encontros breves à sombra. A comida, ali, organizava o tempo.
Nas regiões do Cerrado goiano, do Mato Grosso e do norte mineiro, a presença da mama-cadela se confundia com a paisagem. Não era prato de celebração, mas de permanência. Sua discreta contribuição calórica e medicinal sustentava corpos em trânsito, em deslocamento constante entre roça, pasto e estrada de terra. O alimento não marcava exceções; sustentava continuidades.
Psicologia da escassez e do saber prático
Há um aspecto psicológico pouco observado nessa relação: a confiança no que é conhecido. Em sociedades marcadas pela instabilidade ambiental, o hábito alimentar funciona como âncora. Consumir a mama-cadela era reafirmar uma ordem compreensível do mundo, em que a natureza não era adversária nem espetáculo, mas interlocutora.
Esse saber prático, transmitido fora das instituições formais, construiu uma mentalidade alimentar avessa ao desperdício e à exuberância desnecessária. Não se tratava de romantizar a pobreza, mas de compreender limites. A mama-cadela, nesse sentido, não simboliza abundância, mas adaptação. Ela ensina que comer também é aceitar o que o território oferece, sem exigir que ele se transforme.
Urbanização e apagamentos
Com a urbanização acelerada do século XX, esse sistema silencioso começou a perder espaço. A migração para as cidades, a padronização dos mercados e a medicalização do saber popular deslocaram a mama-cadela para a margem da memória coletiva. Tornou-se curiosidade botânica, ingrediente exótico, às vezes reduzida a nota de rodapé.
Esse apagamento não foi neutro. Ao abandonar alimentos como a mama-cadela, o Brasil urbano também se afastou de uma relação menos ansiosa com a comida, substituindo o conhecimento empírico por rótulos e prescrições. O fruto, que nunca precisou ser explicado, passou a exigir tradução.
Permanências silenciosas
Ainda assim, a mama-cadela persiste. Não como moda, mas como vestígio. Em quintais, feiras locais e memórias familiares, ela continua a existir como lembrança de um Brasil que comia para viver, e não para se afirmar. Sua permanência discreta revela que a identidade alimentar brasileira não se construiu apenas nos pratos consagrados, mas também nesses hábitos quase invisíveis, que moldaram comportamentos, afetos e formas de estar no mundo.
Observar a mama-cadela é, portanto, observar um país que antecede seus próprios registros. Um Brasil em que comer era uma forma de compreender a paisagem, de aceitar limites e de construir sentido a partir do que estava ao alcance da mão. Não há nostalgia nisso, apenas constatação. Alguns alimentos não pedem resgate; pedem escuta.
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