Histórias da Culinária: a origem do shawarma
- Tali Americo

- há 15 horas
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Poucos pratos conseguem contar uma história tão ampla sobre migração, comércio e encontros culturais quanto o shawarma. Hoje encontrado em ruas movimentadas de cidades como Beirute, Istambul, São Paulo, Paris e Nova York, ele parece pertencer a muitos lugares ao mesmo tempo. E, de certa forma, pertence mesmo.

Sua história começa no vasto território do Império Otomano, que durante séculos conectou partes da Europa, Ásia e Oriente Médio. Até o século XIX, carnes assadas eram tradicionalmente preparadas em espetos horizontais, próximos ao fogo. Em algum momento desse período, cozinheiros da região da atual Turquia passaram a posicionar grandes peças de carne em espetos verticais, permitindo que a gordura escorresse lentamente sobre as camadas inferiores durante o cozimento.
A inovação mudou a forma de preparar e servir carne nas cidades do império. O método se espalhou rapidamente por territórios que hoje correspondem à Turquia, Síria, Líbano, Jordânia e outros países da região. Foi nesse contexto que surgiu o ancestral do shawarma moderno.
O próprio nome deriva de uma palavra de origem turca relacionada ao ato de girar. A técnica consistia em empilhar finas camadas de carne, geralmente cordeiro, carne bovina ou frango,em um espeto vertical que girava lentamente diante do calor. À medida que a superfície dourava, o cozinheiro cortava fatias finas que eram servidas imediatamente.
Com o passar do tempo, cada região desenvolveu sua própria interpretação. Na Síria e no Líbano, o shawarma passou a ser servido dentro de pães achatados, acompanhado por molhos, vegetais e conservas. Em outras áreas do Oriente Médio, ganhou combinações específicas de especiarias que ajudaram a construir identidades culinárias locais.

A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, grandes movimentos migratórios levaram o shawarma para outros continentes. Imigrantes sírios e libaneses estabeleceram negócios em diversos países das Américas, difundindo técnicas e sabores que rapidamente conquistaram novos públicos.
Essas viagens produziram transformações curiosas. No México, por exemplo, a técnica do espeto vertical inspirou o surgimento do famoso taco al pastor, preparado com carne suína e influências locais. Na Grécia, desenvolveu-se o gyros. Em diferentes regiões do mundo, a ideia original foi reinterpretada inúmeras vezes.
No Brasil, a chegada de imigrantes sírios e libaneses entre o final do século XIX e o início do século XX ajudou a introduzir pratos que hoje fazem parte da paisagem gastronômica nacional. Embora nem sempre mantivesse o nome original, o shawarma encontrou espaço em restaurantes árabes e, mais recentemente, em casas especializadas espalhadas por grandes centros urbanos.
Atualmente, o prato continua sendo símbolo de uma culinária construída pelo movimento de pessoas e culturas. Sua popularidade global mostra como receitas podem atravessar fronteiras sem perder completamente suas raízes.
Mais do que um sanduíche recheado de carne e especiarias, o shawarma representa séculos de circulação cultural. Sua história lembra que a gastronomia raramente permanece parada, mas gira, viaja e se transforma, assim como o espeto que lhe deu origem.
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