A classe média brasileira ainda cozinha?
- Tali Americo

- há 5 dias
- 4 min de leitura
Durante boa parte do século XX, a cozinha ocupou um lugar central na organização da vida doméstica brasileira. Mais do que um espaço destinado ao preparo das refeições, ela funcionava como ambiente de convivência, transmissão de saberes familiares e construção de rotinas que marcavam o ritmo da casa. Em torno do fogão, aprendiam-se receitas, repartiam-se tarefas e consolidava-se um repertório culinário que passava de uma geração para outra quase sempre pela observação cotidiana, muito antes de ser registrado em livros ou programas de televisão.

Nas últimas décadas, porém, esse cenário passou por transformações profundas. O avanço da urbanização, a consolidação de jornadas de trabalho mais extensas, o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho, a redução do tamanho das famílias, a verticalização das cidades e, mais recentemente, a expansão do delivery e dos alimentos ultraprocessados alteraram significativamente a relação da classe média brasileira com a cozinha doméstica. A pergunta que emerge desse processo não diz respeito apenas ao hábito de preparar refeições, mas ao papel que cozinhar ainda ocupa na vida cotidiana.
À primeira vista, a resposta parece simples. Basta observar o crescimento do mercado de refeições prontas, dos aplicativos de entrega e da alimentação consumida fora de casa para concluir que os brasileiros cozinham menos do que antes. Os números, de fato, apontam para um aumento consistente do consumo de alimentos preparados por terceiros, especialmente nos grandes centros urbanos, onde tempo e deslocamento tornaram-se recursos cada vez mais escassos.
Entretanto, essa leitura revela apenas parte da história.
Se cozinhar diariamente deixou de ser uma obrigação para muitas famílias, isso não significa necessariamente que a cozinha tenha perdido importância. O que se observa é uma mudança na função social desse espaço. Durante grande parte do século passado, preparar o almoço ou o jantar fazia parte da rotina doméstica e era percebido como uma tarefa inevitável. Hoje, para uma parcela significativa da classe média, cozinhar passou a ocupar outro lugar: deixou de ser apenas trabalho reprodutivo e, em muitos casos, tornou-se atividade de lazer, forma de expressão pessoal e até símbolo de identidade cultural.
Essa transformação pode parecer contraditória. Ao mesmo tempo em que cresce o consumo de refeições prontas durante a semana, multiplicam-se cursos de gastronomia, perfis culinários nas redes sociais, programas de televisão dedicados à cozinha e um mercado cada vez mais sofisticado de utensílios domésticos, panelas, facas e equipamentos que prometem transformar qualquer cozinha residencial em uma versão reduzida das cozinhas profissionais.
O fenômeno revela uma mudança importante. A cozinha cotidiana perdeu espaço; a cozinha performática ganhou protagonismo.
Não por acaso, muitos brasileiros que passam dias inteiros sem preparar uma única refeição dedicam parte do fim de semana ao preparo de massas artesanais, churrascos, fermentações naturais ou receitas elaboradas cuja execução exige horas de dedicação. O ato de cozinhar deixa de responder à necessidade imediata de alimentar a família e passa a produzir outro tipo de recompensa, ligada ao prazer, à criatividade e ao compartilhamento da experiência.
Essa mudança acompanha transformações mais amplas da própria classe média brasileira.
Ao longo do século XX, possuir eletrodomésticos modernos representava uma promessa de redução do trabalho doméstico. Geladeiras maiores, fogões mais eficientes, fornos de micro-ondas e alimentos industrializados eram apresentados como conquistas associadas ao progresso, capazes de liberar tempo para outras atividades. Em certa medida, essa promessa se cumpriu. Cozinhar tornou-se menos obrigatório justamente porque uma parcela crescente da alimentação passou a ser produzida fora do ambiente doméstico.
Paradoxalmente, foi essa mesma redução da obrigação que permitiu que cozinhar passasse a ser valorizado como escolha.
Essa lógica ajuda a explicar por que receitas tradicionais voltaram a despertar interesse entre gerações mais jovens. Pães de fermentação natural, conservas, embutidos artesanais, cafés especiais e preparações que exigem longos períodos de execução ganharam espaço justamente em um contexto marcado pela velocidade. Quanto mais acelerada se torna a vida urbana, maior parece ser o fascínio por atividades que desaceleram o tempo e restabelecem uma relação mais concreta com os alimentos.
Ao mesmo tempo, essa realidade não se distribui de maneira homogênea.
Nas periferias urbanas e entre famílias de menor renda, cozinhar continua sendo uma necessidade econômica antes de ser uma escolha cultural. Preparar refeições em casa permanece, para milhões de brasileiros, a alternativa mais viável diante do custo da alimentação fora do lar. A ideia de que cozinhar se tornou um hobby diz respeito, sobretudo, a segmentos específicos da população, cujas condições materiais permitem terceirizar parte da alimentação cotidiana.
Essa distinção é importante porque revela como o ato de cozinhar também expressa desigualdades sociais.
Para alguns, a cozinha tornou-se espaço de criatividade. Para outros, continua sendo um trabalho diário indispensável à organização da vida familiar. Em ambos os casos, entretanto, ela permanece desempenhando papel central na construção da identidade doméstica, ainda que por razões bastante diferentes.
Há outro aspecto menos evidente nessa transformação.
Ao cozinhar menos frequentemente, muitas famílias deixaram também de transmitir determinados conhecimentos culinários entre gerações. Receitas que antes eram aprendidas pela convivência passaram a ser consultadas em vídeos, aplicativos ou livros especializados. O saber culinário deslocou-se da memória familiar para plataformas digitais, alterando não apenas a forma de aprender, mas também a própria relação afetiva com a comida.
Isso não significa, necessariamente, que a culinária doméstica esteja desaparecendo. Talvez ela esteja apenas mudando de significado.
A cozinha deixou de ser exclusivamente o lugar onde se prepara a refeição diária para assumir funções mais amplas. Ela continua sendo espaço de encontro, mas agora também é cenário para fotografias, gravações de vídeos, experiências gastronômicas, celebrações familiares e manifestações de criatividade. Em vez de desaparecer, foi ressignificada por uma sociedade que reorganizou sua relação com o tempo, com o trabalho e com o próprio ato de comer.
Por isso, perguntar se a classe média brasileira ainda cozinha talvez não seja a questão mais adequada. A resposta depende do significado atribuído ao verbo cozinhar. Se ele remete à rotina de preparar diariamente todas as refeições da casa, a prática certamente perdeu espaço nas últimas décadas. Mas, se cozinhar significa construir memórias, experimentar sabores, reunir pessoas e produzir formas de convivência, a cozinha continua ocupando um lugar importante no imaginário da classe média brasileira — apenas deixou de ser uma obrigação cotidiana para se tornar, cada vez mais, uma escolha cultural.
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