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Imperfeição à mesa: quando o erro passa a ser sinal de verdade na comida brasileira

  • Foto do escritor: Ana Beatriz
    Ana Beatriz
  • 28 de jan.
  • 4 min de leitura

Durante muito tempo, sobretudo à medida que o Brasil se urbanizava e se acostumava às promessas de eficiência, repetição e crescimento contínuo, a boa comida foi associada àquilo que não variava. O prato correto era o que chegava sempre igual, obediente a um modelo fixo, imune às oscilações de clima, humor ou mão. Havia, nessa expectativa de constância, uma ideia de progresso: cozinhar bem significava controlar o acaso. A técnica, nesse cenário, era sobretudo um instrumento de domesticação.


Prato servido em cozinha simples, com apresentação irregular e marcas visíveis do preparo
A comida que não se repete exatamente

Mas algo começa a se deslocar no olhar de parte do público brasileiro. Não de forma ruidosa, nem consensual, mas perceptível para quem observa com atenção. O prato excessivamente perfeito, idêntico a si mesmo em todas as mesas, passa a despertar desconfiança. Em seu lugar, ganha espaço uma valorização cautelosa daquilo que varia, que carrega pequenas falhas, que denuncia a presença humana. A imperfeição começa a ser lida, não automaticamente, mas com crescente frequência, como sinal de verdade.


Essa mudança não é apenas estética. Ela toca questões profundas de identidade, memória e confiança.


Padronização e ofício: uma tensão antiga


A história recente da alimentação urbana no Brasil foi marcada por um embate silencioso entre dois modos de cozinhar. De um lado, a padronização trazida pela indústria, pelas franquias, pela lógica de escala que acompanhou o crescimento das cidades e prometeu segurança, rapidez e previsibilidade. De outro, a cozinha de ofício, aprendida na prática, transmitida por observação, sujeita ao improviso e às limitações do dia.


A primeira oferecia conforto psicológico: saber exatamente o que se receberia. A segunda exigia tolerância ao imprevisto. Durante décadas, a padronização venceu a disputa simbólica, associando variação a erro e erro a incompetência. Comer fora era, em muitos casos, buscar refúgio contra a incerteza da vida doméstica, contra a panela que podia dar errado.


No entanto, à medida que essa previsibilidade se tornou regra, começou também a perder seu encanto. O prato impecável, repetido à exaustão, passou a soar distante, como se tivesse sido produzido por um sistema que imitava a mão humana sem jamais se comprometer com ela.


O valor cultural do “cada dia é um dia”


Na cultura alimentar brasileira, o “caseiro” sempre ocupou um lugar ambíguo. Ao mesmo tempo em que era sinônimo de cuidado e proximidade, carregava o estigma da falta de técnica. Ainda assim, persistiu como referência afetiva. A comida de casa nunca foi exatamente igual à de ontem, e essa variação raramente era interpretada como defeito. Pelo contrário: era sinal de vida.


Esse entendimento começa a reaparecer fora do ambiente doméstico. O prato que muda conforme o peixe disponível, a carne que responde à estação, o tempero que se ajusta à mão de quem cozinha naquele dia, passam a ser vistos como expressões de honestidade. Comer deixa de ser apenas consumir um resultado e passa a ser aceitar um processo.


Nesse contexto, a imperfeição não é celebrada como descuido, mas tolerada como evidência de que algo foi feito ali, naquele momento, sob aquelas condições. O “feito na hora” recupera seu peso simbólico, não como slogan, mas como pacto implícito entre quem cozinha e quem come.


Regiões onde a variação é regra


Em muitas cozinhas regionais brasileiras, a ideia de repetição exata nunca fez sentido. Na comida de rua, nos mercados populares, nas casas de família espalhadas pelo interior, a variação é parte do ritual. O mesmo prato carrega diferenças sutis conforme o dia, o fornecedor, o fogo. E ninguém espera que seja diferente.


Nesses espaços, a confiança não nasce da promessa de perfeição, mas da familiaridade com a oscilação. Sabe-se que hoje pode estar melhor, amanhã apenas correto, e depois surpreendentemente bom. Comer, ali, exige disposição para aceitar o humano.


Mesmo em contextos urbanos, esse traço persiste. Certos lugares constroem sua reputação não pela exatidão milimétrica, mas pela sensação de que há alguém do outro lado da panela, respondendo ao ingrediente, ajustando, errando um pouco, acertando em seguida.


Erro, confiança e nostalgia


A aceitação do erro humano na comida carrega uma dimensão psicológica profunda. Ela pressupõe confiança. Confiar é aceitar que nem tudo será perfeito, mas que há intenção, cuidado e presença. Essa confiança aproxima, cria intimidade, desperta nostalgia de um tempo em que cozinhar não era espetáculo nem produto, mas necessidade cotidiana.


Ao mesmo tempo, essa nostalgia pode ser traiçoeira. Nem toda imperfeição é virtude. O risco está em transformar a ideia de autenticidade em escudo para o desleixo. O limite entre o prato vivo e o prato mal executado é sutil e, muitas vezes, negociado na mesa com silêncio constrangido.


É nesse ponto que o olhar crítico se faz necessário. A imperfeição só comunica verdade quando há referência, quando se percebe intenção e conhecimento por trás da variação. Caso contrário, ela deixa de ser humana para se tornar negligente.


Entre a verdade e a desculpa


O movimento que valoriza o imperfeito revela um desejo legítimo de reencontro com a comida como ato humano, sujeito a falhas, emoções e circunstâncias. Ele reage a um mundo excessivamente controlado, em que até o sabor parecia pré-programado. Mas esse mesmo movimento carrega o perigo de esvaziar a técnica, como se todo rigor fosse artificial e toda repetição, suspeita.


A cozinha brasileira, em sua melhor expressão, sempre soube equilibrar esses polos. Nunca foi puramente improviso, nem pura padronização. O que se observa agora é uma tentativa de recalibrar esse equilíbrio, devolvendo à comida a possibilidade de variar sem pedir desculpas, mas também sem abdicar da responsabilidade.


A imperfeição, quando honesta, humaniza. Quando usada como retórica, cansa. Entre uma e outra, o comensal brasileiro aprende, novamente, a olhar para o prato não em busca de simetria absoluta, mas de sinais de vida.


E talvez seja esse o traço mais revelador do momento: em um país acostumado a desconfiar das promessas, começa-se a acreditar que aquilo que não se repete exatamente pode, paradoxalmente, ser o que mais diz a verdade.

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