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Comida como marcador de classe: o que o Brasil revela quando se senta à mesa

  • Foto do escritor: Ana Beatriz
    Ana Beatriz
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

No Brasil, comer nunca foi apenas satisfazer a fome. Desde cedo, o prato serviu como senha social, um código silencioso capaz de situar corpos, histórias e aspirações em uma hierarquia raramente declarada, mas amplamente compreendida. À mesa, mais do que sabores, distribuem-se posições. Escolher o que comer, onde comer e como falar sobre a própria comida sempre foi uma forma de dizer quem se é — ou quem se deseja parecer.


Mesas contrastantes em um mesmo bairro: um restaurante popular e outro sofisticado
À mesa, o Brasil também se hierarquiza

Essa lógica não se construiu de maneira súbita. Vem de longe, do tempo em que a casa grande se organizava longe da cozinha, e em que o acesso a certos ingredientes, modos de preparo e rituais de mesa servia para reafirmar distâncias sociais. A comida, nesse contexto, não apenas alimentava: classificava.


Heranças de uma mesa desigual


A formação do Brasil colonial instituiu divisões claras entre a comida que se via e a que se escondia. O que era servido com porcelana e talheres importados carregava um valor simbólico distinto daquilo que se comia com as mãos, em silêncio, fora do campo de visão. Essa separação inicial sedimentou categorias que atravessaram os séculos: comida de rico e comida de pobre, refeição “fina” e comida “pesada”, prato “simples” e prato “de ocasião”.


Com o passar do tempo, essas distinções se sofisticaram, mas não desapareceram. A urbanização trouxe restaurantes, cardápios e etiquetas que continuaram a organizar o pertencimento. Saber pedir, saber pronunciar, saber justificar uma escolha tornou-se tão importante quanto o sabor em si. Comer passou a exigir argumento.


Escolhas que falam


Ao observar como brasileiros escolhem seus pratos, percebe-se que raramente se trata apenas de gosto. Há, quase sempre, uma narrativa embutida. O sujeito que defende a comida tradicional o faz, muitas vezes, como afirmação identitária. Aquele que busca ingredientes raros ou cozinhas estrangeiras também constrói, pela escolha, uma imagem de mundo, informada por desejos de distinção e mobilidade simbólica.


Entre tradição popular e consumo aspiracional, instala-se uma tensão constante. Pratos antes associados à escassez são revalorizados quando atravessam outros espaços sociais, enquanto certos alimentos continuam carregando estigmas difíceis de dissolver. O que muda não é apenas o prato, mas o contexto em que ele é servido e observado.


Geografias do status alimentar


Esses códigos variam conforme o território. Nas capitais, o restaurante funciona como palco. Escolher onde comer é quase tão relevante quanto o que se come. No interior, a distinção se dá mais pela fartura ou pela procedência do que pela sofisticação aparente. No litoral, o frescor e o acesso ao mar constroem prestígio; no sertão, a resistência e o aproveitamento integral dos ingredientes carregam outro tipo de valor simbólico.


Até mesmo dentro das cidades, bairros delimitam expectativas. Há lugares onde se come para ser visto, e outros onde se come para permanecer invisível. A comida acompanha essas fronteiras com precisão desconcertante.


Comportamentos à mesa


A forma como se come também denuncia posições. Comer sozinho ou em grupo, em casa ou fora, em silêncio ou em exibição, revela mais do que preferências pessoais. Há pratos que se fotografam e outros que se escondem. Há escolhas que se defendem com orgulho e outras que pedem justificativa prévia, quase como pedido de desculpas.


A vergonha alimentar, tão pouco discutida, nasce desse sistema. Ela se manifesta quando alguém sente a necessidade de explicar por que gosta do que gosta, ou de provar que sua escolha não é ignorância, mas decisão consciente. O orgulho, por sua vez, aparece quando a comida funciona como troféu simbólico, sinalizando acesso, repertório e pertencimento.


A comida como linguagem social


Nada disso é neutro. A comida opera como linguagem, e toda linguagem pode ferir. Ao classificar pratos, classificam-se pessoas. Ao valorizar certas cozinhas, desvalorizam-se histórias inteiras. Não há romantismo possível nessa constatação. A mesa brasileira é, ao mesmo tempo, lugar de afeto e de exclusão, de encontro e de vigilância.


Observar o que se come no Brasil é observar como o país lida com suas desigualdades sem precisar nomeá-las. A comida oferece um vocabulário acessível, cotidiano, por meio do qual se negociam posições sociais com uma naturalidade inquietante.


Permanências e disfarces


Mesmo quando se fala em mistura, em democracia gastronômica, os códigos persistem. Eles apenas mudam de forma. O discurso da autenticidade, por exemplo, pode funcionar tanto como valorização legítima quanto como novo instrumento de distinção. A comida continua sendo usada para marcar diferenças, ainda que sob novos nomes.


Sentar-se à mesa no Brasil é, portanto, participar de um jogo antigo, em constante atualização. Um jogo em que o prato serve de espelho social, refletindo pertencimentos, aspirações e medos. Comer é um ato íntimo, mas nunca totalmente privado. E talvez seja justamente por isso que a comida diga tanto sobre quem somos — e sobre quem não queremos parecer.

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