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A Nova Onda de Cozinhas Regionais em São Paulo

  • Foto do escritor: Ana Beatriz
    Ana Beatriz
  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

O Brasil inteiro chegou à mesa paulistana e desta vez com técnica, identidade e sem pedir licença.


Cozinhas Regionais em São Paulo

São Paulo sempre foi uma cidade de muitas cozinhas. Italiana, japonesa, árabe, judaica, peruana — a imigração construiu ao longo de décadas uma cena gastronômica que nenhuma outra cidade do país conseguiu replicar em diversidade. Mas havia uma ausência curiosa nesse mosaico: o Brasil mesmo.


Não que faltassem restaurantes de comida brasileira. Faltava, por muito tempo, a combinação específica de ingrediente regional, técnica contemporânea e proposta autoral que define o que se chama de alta cozinha. Foram os migrantes de todas as regiões do país que transformaram São Paulo em um verdadeiro epicentro de culturas e tradições que atravessam o Brasil, do norte ao sul. Mas traduzir essa riqueza em gastronomia de alto nível levou gerações.


Agora, esse movimento chegou a um ponto de maturidade incomum. Uma nova geração de chefs está levando Minas, o Nordeste, a Amazônia e o Cerrado para a mesa paulistana com uma clareza que não existia antes: sem folclore, sem condescendência, sem aquela necessidade de explicar o ingrediente como se fosse exótico. Apenas cozinhando bem o que o Brasil tem de melhor.


O que mudou


O ponto de virada tem nome e endereço. O D.O.M., do chef Alex Atala, foi pioneiro na valorização da cozinha brasileira, elevando ingredientes como mandioca, quiabo e priprioca a um novo patamar, com menus que percorrem biomas como a Amazônia e o Cerrado. Aberto há mais de 25 anos, o restaurante criou um vocabulário que outros chefs puderam usar como ponto de partida — não como modelo a copiar, mas como prova de que a cozinha brasileira tinha o mesmo potencial criativo de qualquer outra tradição culinária do mundo.


Paralelamente, o Mocotó, do chef Rodrigo Oliveira, fez algo diferente e igualmente importante: mostrou que a cozinha nordestina podia ser levada a sério sem precisar se formalizar. Baião de dois, escondidinho de carne-seca, sarapatel — pratos de raiz tratados com o mesmo rigor técnico aplicado a qualquer receita clássica europeia. O Mocotó existe desde 1973 e ainda hoje tem fila.


O Tordesilhas, da chef Mara Salles, aberto em 1990, é outra referência fundamental: uma verdadeira embaixada da cozinha brasileira, servindo pratos regionais de todo o país — da moqueca capixaba ao barreado paranaense, do baião de dois ao frango com couve mineira — em um casarão nos Jardins que funciona há décadas como ponto de encontro entre São Paulo e o Brasil.


Esses três endereços abriram caminho. O que está acontecendo agora é a geração seguinte tomando esse espaço com ainda mais desenvoltura.


Minas em Pinheiros: o Lena


O caso mais recente — e mais revelador da tendência — é o Lena, aberto em Pinheiros pelo chef Mário Santiago. Mineiro de Belo Horizonte, ele trocou a engenharia pela gastronomia, fundou a premiada A Pão de Queijaria em BH e passou por casas como Mocotó, Manioca e até o Noma, em Copenhague, antes de abrir seu primeiro restaurante solo em São Paulo.


O resultado é uma cozinha que só faz sentido na trajetória de quem viveu nos dois lados: o pão de queijo ganha técnica de folhagem francesa, o ora-pro-nóbis encontra o kimchi, e a costelinha laqueada vem com couve kale e ponzu. Minas de alma, mundo de repertório. O próprio chef define assim: "É uma cozinha que nasce da minha própria história como mineiro que encontrou o mundo."


O cupim com mousseline, o arroz bem caldoso com galinhada e a pipoca de pão de queijo com goiabada são destaques de um menu que carrega técnica sem abrir mão da tradição caseirinha. O ambiente, na Rua Virgílio de Carvalho Pinto — uma das mais badaladas de Pinheiros —, com mesas na calçada e pé-direito alto, completa a proposta: Minas chegou ao bairro mais gastronômico de São Paulo e se sentiu em casa.


Amazônia como protagonista: o Banzeiro


Se o Lena representa a cozinha mineira contemporânea, o Banzeiro faz pelo Norte o que poucos restaurantes no Brasil conseguiram: tornar a Amazônia inteligível para quem nunca esteve lá.


O chef Felipe Schaedler tem sido um dos grandes responsáveis por projetar a gastronomia amazônica no cenário nacional, combinando ingredientes nativos, saberes tradicionais e execução contemporânea. Pirarucu defumado, tucupi, castanha, jambu, açaí salgado — cada ingrediente é intencional, estudado, apresentado com elegância que não diminui sua origem. O menu combina tradição e inovação, com técnicas modernas que destacam a riqueza da região amazônica — uma experiência que amplia o repertório e revela a diversidade do Brasil profundo.


O Banzeiro não tenta fazer a Amazônia parecer sofisticada. Mostra que ela já é — e que bastava alguém contar essa história da forma certa.


Nordeste sem fronteira: o Mocotó e o movimento que ele gerou


O Mocotó é anterior a qualquer tendência. Funciona desde 1973 na Vila Medeiros e continua sendo referência absoluta da cozinha nordestina em São Paulo. O que mudou ao longo dos anos foi o entorno: o chef Rodrigo Oliveira virou um dos nomes mais respeitados da gastronomia brasileira contemporânea, e o restaurante que nasceu como boteco de bairro passou a influenciar uma geração inteira de cozinheiros.


Dessa influência nasceram desdobramentos — do Balaio IMS, no mesmo universo criativo de Rodrigo Oliveira dentro do Instituto Moreira Salles na Paulista, a uma série de casas menores que encontraram no Nordeste não um cardápio temático, mas uma linguagem. Carne de sol, manteiga de garrafa, feijão-de-corda, tapioca — ingredientes que chegam a São Paulo não como novidade exótica, mas como parte legítima da mesa brasileira.


O que une essa geração


O que há de comum entre o Lena, o Banzeiro, o Mocotó e os outros endereços que compõem essa nova onda não é a culinária em si — cada um tem raiz, técnica e identidade próprias. O que une todos eles é uma recusa ao complexo de inferioridade que marcou parte da gastronomia brasileira durante décadas.


Por muito tempo, cozinha brasileira era o que se fazia antes de aprender cozinha francesa. Hoje, é o destino — não o ponto de partida que se abandona quando se torna "técnico". São Paulo é fruto de muitas camadas culturais formadas ao longo dos séculos por intensos movimentos migratórios, e os migrantes de todas as regiões do Brasil transformaram a cidade em um verdadeiro epicentro de culturas e tradições que atravessam o país, do norte ao sul.


O que os melhores chefs dessa geração entenderam é que isso não é limitação. É o maior acervo criativo que qualquer cozinheiro brasileiro poderia ter.


E São Paulo, finalmente, está à mesa para provar.

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